10 de fevereiro de 2008

ATC NuVinci

Uma fantástica invenção, o modelo NuVinci da Fallbrook Technologies. Trata-se de uma transmissão de variação contínua que combina as vantagens dos sistemas anteriormente existentes com o sistema planetário tradicional, permitindo sempre ao ciclista escolher a desmultiplicação adequada ao seu esforço em cada instante. Com este mecanismo, há uma maior simplicidade na troca da desmultiplicação, sendo esta mais suave dado que deixam de existir "mudanças" a trocar, fazendo-se a variação da desmultiplicação de forma contínua e sem engrenagem de carretos, cremalheiras ou sistemas planetários complexos, pelo que pode ser manuseado quer a bicicleta esteja parada ou a andar, com movimento de pedais ou não. O sistema é extremamente simples e aparentemente robusto. Para já, ganhou o galardão de inovação do ano 2007 na Holanda.

Ah, claro, já me esquecia, mas é importante referir que o sistema é totalmente compatível com a maioria das bicicletas existentes no mercado, incluindo a Xtracycle e a Yuba. Se já existe ou virá a ser comercializado em Portugal? Isso é outra história, evidentemente.
Eis uma demonstração do princípio de funcionamento.

9 de fevereiro de 2008

O Albatroz de Gorki

Sobre a superfície cinzenta do mar,
O vento reúne
Pesadas nuvens.
Semelhante a um raio negro,
Entre as nuvens e o mar,
Paira orgulhoso o albatroz,
Mensageiro da tempestade.
E ora são as asas tocando as ondas,
Ora é uma flecha rasgando as nuvens,
Ele grita.
E as nuvens escutam a alegria
No ousado grito do pássaro.
Nesse grito - sede de tempestade!
Nesse grito - as nuvens escutam a fúria,
A chama da paixão,
A confiança na Vitória.
As gaivotas gemem diante da tempestade,
Gemem e lançam-se ao mar,
Para lá no fundo esconderem
O pavor da tempestade.
E os mergulhões também gemem.
A eles, mergulhões,
É inacessível a delícia da luta pela vida:
O barulho do trovão os amedronta...
O tolo pinguim, timidamente
Esconde seu corpo obeso entre as rochas...
Apenas o orgulhoso albatroz voa,
Ousado e livre sobre a espuma cinzenta do mar.
Tonitroa o trovão.
As ondas gemem na espuma da fúria.
E discutem com o vento.
Eis que o vento
Abraça uma porção de ondas
Com força e lança-as
Com maldade selvagem nas rochas,
Espalhando-as como a poeira,
Respingando uma noite de esmeraldas.
O albatroz paira a gritar
Como um raio negro,
Rompendo as nuvens como uma flecha,
Levantando espuma com suas asas.
Ei-lo voando rápido como um demónio;
Orgulhoso e negro demónio da tempestade;
Ri das nuvens, soluça de alegria!
Ele - sensível demónio -
Há muito vem escutando
Cansaço na fúria do trovão.
Tem certeza de que as nuvens não escondem,
Não, não escondem...
Uiva o vento... Ribomba o trovão...
Sobre o abismo do mar,
Um monte de nuvens pesadas
Brilham como centelhas.
O mar pega as flechas de relâmpagos
E as apaga em sua voragem.
Parecem cobras de fogo.
Os reflexos desses raios,
Rastejando sobre o mar e desaparecendo.
- Tempestade!
Breve rebentará a tempestade!
Esse corajoso albatroz
Paira altivo entre os raios
E sobre o mar furiosamente urrando
Então grita o profeta da Vitória:
Que mais forte rebente a tempestade!

Maximo Gorki



8 de fevereiro de 2008

Sheldon Brown, 1944-2008

Acabo de saber, com consternação, do falecimento de Sheldon Brown, no dia 3 de Fevereiro. O nome deste americano do Massachussets não dirá nada à maior parte dos leitores, mas era das pessoas que mais deveria saber, em todo o mundo, acerca de bicicletas, sobretudo de cubos de rodas e mudanças. Uma verdadeira enciclopédia do assunto. Há algum tempo que não ia à sua página pessoal, nem trocava emails com ele e por isso não me apercebi da degradação do seu estado de saúde (padecia de uma forma rara de esclerose múltipla). E era um verdadeiro prazer fazê-lo, tal a simplicidade com que partilhava os seus conhecimentos. Numa ocasião cheguei a telefonar-lhe e estivemos perto de meia-hora ao telefone a falar de cubos Sturmey-Archer da década de 40-50 (tenho uma bicicleta equipada com um cubo desses original e tinha uma dúvida acerca da montagem de uma peça). Apesar da minha ignorância na matéria, teve a paciência de me explicar tudo e ainda me enviou um .pdf com os planos originais da peça em causa. Isto depois de me dizer com toda a delicadeza possível que tais cubos eram uma bela porcaria ("a nice piece of junk"), diga-se de passagem.
Apercebi-me que toda a gente que tem um fraquinho por bicicletas sentia por Sheldon o mesmo tipo de admiração que eu. Inteiramente merecida, de resto, posso acrescentar. Não era meu amigo, evidentemente, mas era reconfortante saber que existia uma pessoa assim.
A última coisa que soube dele é que estava indeciso entre votar em Clinton ou Obama, mas numa actualização recente da sua homepage afirmou que votaria em Obama. Ah! E era um americano que falava francês.
Boas pedaladas Sheldon.

Groupama 3, a partida do albatroz e a entrada caótica no Índico

Nos últimos dois dias o Groupama 3 perdeu imenso do avanço que detinha face ao Orange 2. Neste momento a distância reduziu-se para pouco mais de 200 milhas e tenderá ainda a diminuir nas próximas 24 horas, dado que a embarcação navegará à bolina durante umas horas, até estancar, mercê da melhoria das condições de navegação. As dificuldades foram motivadas por um anticiclone que se alojou à entrada do Índico, a sudeste do Cabo da Boa Esperança e por uma depressão girando demasiado a norte em torno da Antártida. O encontro de ambas provocou forte ondulação do mar, fazendo com que este ficasse bastante desencontrado, dificultando enormemente a progressão. No caso de um trimarã isto é tanto mais complicado quanto três cascos significam multiplicar o problema por três, com pressão e pancadas enormes em toda a estrutura de braços, mastro e velame.
Aqui podemos verificar a evolução dos centros de altas e baixas pressões ao largo da costa oeste africana, sobrepondo-se a rota do Groupama a verde.
Dois dias antes do Cabo da Boa Esperança o Groupama passou ao largo da Ilha de Santa Helena, colónia britânica e local de exílio de Napoleão Bonaparte, mas provavelmente os marinheiros não tiveram tempo de se lembrar do facto dado que tiveram de manobrar bastante, com mudanças de bordo consecutivas.
A boa notícia é que as esperanças de se atingir o recorde continuam intactas e a tripulação conseguiu acariciar o dorso de um segundo albatroz, antes de este se despedir (na imagem: Franck Proffit, chefe de quarto e leme a bordo do Groupama 3).

7 de fevereiro de 2008

A flor do Inverno


É ao olharmos para a amendoeira,
este ano requintada e deliciosamente florida
e depois para a figueira desnuda
incarnando perfeitamente o espírito da estação,
que somos levados a pensar
que não é o mesmo Inverno que as envolve.

E no entanto,
sabemos que à flor da amendoeira
sucederá a flor da figueira,
esta crescendo a seu tempo,

segura e com o viço,
resguardada pela grossa folha caduca

O Verão chega sempre

e uma e outra, no tempo da boa-nova,
darão o fruto apetecido, que em Outubro,
maduro se casará à boa mesa,
em família,
seco, torrado
ou adocicado à sobremesa.


E então, no ciclo ininterrupto das estações,
será novamente Inverno,
tempo de aparelhar os cestos na bicicleta
e ir à lenha
perto do campo das bétulas,
mesmo ao lado das colmeias,

mergulhadas no cheiro da terra
humedecida pelo orvalho da noite.

Telegrama Groupama

Uma breve nota para dizer que o Groupama 3 acaba de passar o Cabo da Boa Esperança em tempo recorde. Mantém-se em avanço sobre o tempo do Orange 2, mas agora a menos de 300 milhas virtuais de distância. Voltaremos a este assunto assim que houver uma nesga de tempo.

6 de fevereiro de 2008

Uma bejeca para o caminho

Lido num pacotinho de açucar da Caffecel: na volta a Portugal em bicicleta de 1951, Ribeiro da Silva, uma figura proeminente no ciclismo nacional (ganhou as voltas de 1955 e 1957) terá, devido ao calor, parado numa venda de beira da estrada para beber uma cerveja fresca. Como não tinha dinheiro, teve de esperar por um carro de apoio para pagar a dívida. Longe vinham ainda os tempos do controlo anti-doping ditados pela UCI. Como curiosidade refira-se que a volta desse ano foi ganha por Alves Barbosa.

Portugal é 18º em Desempenho Ambiental

Portugal ocupa o 18º lugar em termos de performance ambiental, de acordo com o Índice de Desempenho Ambiental 2008, apresentado recentemente em Davos pelo Fórum Económico Mundial. A lista de 149 países é liderada pela Suíça (com 95,5 por cento), logo seguida da Noruega, Suécia e Finlândia. Os últimos são Serra Leoa (40) e Angola (39,5),e na 149ª posição está o Níger com 39,1 por cento. O índice avaliou o trabalho feito na área do clima, poluição do ar, água, recursos naturais e qualidade ambiental, e foi elaborado por uma equipa especialista das universidades de Yale e Columbia.
Dentro da fronteira europeia, Portugal está na 11ª posição, à frente de países como Itália, Dinamarca, Espanha ou Holanda. O País está acima da média europeia em cinco das seis categorias, avaliadas com base em 25 indicadores, que reflectem as prioridades ambiuentais dos governos e a concretização mundial do objectivo 7 dos «Objectivos do Milénio», da Organização das Nações Unidas, que é «garantir a sustentabilidade ambiental». Onde Portugal conseguiu os melhores resultados foi nas áreas do saneamento básico, água potável, emissões per capita, e protecção de habitats críticos. A pior nota obtida foi na área da biodiversidade e habitat, onde ficou abaixo da média, e no indicador de áreas marinhas protegidas e conservação efectiva da natureza.


A irreversibilidade dos "tipping elements"


Um estudo publicado ontem na revista “Proceedings of the National Academy of Science” (PNAS) lista as nove regiões do planeta que, ainda este século, serão palco de alterações bruscas devido ao sobre-aquecimento do planeta. Os cientistas, coordenados por Tim Lenton, da Universidade de East Anglia, alertam que pequenas actividades humanas podem alterar, de forma ampla e duradoura, alguns dos componentes mais importantes do sistema climático do planeta. Os investigadores chamam “tipping elements” a nove desses componentes que estão em risco de ultrapassar uma fronteira crítica. Os nove elementos são: o degelo do Ártico (processo que se estima estar concluído dentro de dez anos), o recuo da camada de gelo na Gronelândia (em 300 anos), o colapso da plataforma gelada do Oeste da Antárctida (300 anos), o colapso da corrente oceânica global conhecida como termoalina (100 anos), o aumento da oscilação do fenómeno El Niño no Pacífico (100 anos), o colapso das monções na Índia (um ano), a interrupção das monções na região ocidental de África (dez anos), o desaparecimento da floresta da Amazónia (50 anos) e o desaparecimento da floresta boreal (50 anos).

Fonte: Lusa

O primeiro albatroz do Groupama

Pode parecer pouco ou até insignificante, mas não é. No Groupama 3 acabam de avistar o primeiro albatroz, ainda no Atlântico, mais ou menos à latitude da Cidade do Cabo. Numa volta ao mundo por via marítima, significa que acaba de se entrar no imenso Sul, normalmente abaixo do paralelo 40ºS, onde o carrossel das vagas gigantes e dos ventos depressionários se encadeiam de forma infernal. E que faz um albatroz em semelhantes paragens? Nada. Mas também voa e pesca e apenas virá a terra para acasalar e procriar.

4 de fevereiro de 2008

Riding the Spine & Dolce Vita

Enquanto os homens a bordo do trimarã gigante Groupama 3 continuam a mergulhar em direcção à imensidão dos Mares do Sul, agora já com mais de 600 milhas de avanço em relação ao tempo do Orange 2, na América Latina Goat, Jacob, Sean e, agora também Nate e Russ, igualmente rumo a Sul, chegaram a metade do percurso pedalando arduamente entre o Alasca e a Terra do Fogo. Depois da travessia da Guatemala, estão agora na Nicarágua e as suas bicicletas long-tail continuam a portar-se à altura e a suportar lindamente as agruras e dificuldades do trajecto da expedição Riding the Spine.

Destaque-se, entre as montarias participantes, a fantástica Chupacabra tripulada por Goat, que é uma verdadeira sensação, a analisar demoradamente sob o ponto de vista do arrojo técnico.




Deste lado começamos a preparar a nossa Xtracycle para os primeiros raides do ano e para uma eventual participação nos Caminhos de Santiago. A ponte a meio do quadro foi reforçada e a corrente substituída por uma mais robusta. Por outro lado, optámos por pneus de estrutura reforçada que se dão melhor nas pedras, depois de alguns percalços recentes em zonas rochosas. Os travões foram igualmente substituídos por uns Deore Lx de forma que as descidas de declive acentuado passaram a ser uma formalidade, mesmo com carga plena.

Entretanto, ainda noutro registo, aproxima-se o tempo em que as crianças voltam a ir para a escola de comboio e bicicleta e a dolce vita da bicycle lifestyle regressa alegremente. Neste Inverno perdemos uma dezena de quilos, muito por culpa de uma coisa destas, mas o certo é que em quinze dias nos foi possível regressar ao comando de uma bicicleta. O progresso da medicina é notável.

30 de janeiro de 2008

Groupama 3: recorde entre Ouessant e a Linha do Equador

Com apenas 6 dias, 6 horas e 24 minutos de tempo decorrido desde o cruzamento da linha de partida em Ouessant, na costa Atlântica francesa, o trimarã Groupama 3 acaba de cruzar a linha do Equador, passando a navegar no Hemisfério Sul. Este passa a ser um tempo de referência na volta ao mundo e o mais rápido de sempre. O Equador é um - o primeiro - dos pontos de controlo e referência de tempo de entre os vários ao longo do percurso. Próximo encontro: Cabo da Boa Esperança, depois da delicada curva que aproximará o Groupama das costas brasileiras, numa rota peculiar inaugurada pelos navegadores portugueses para contornar o anticiclone de Santa Helena e assim aproveitar os melhores ventos para negociar a entrada no Indico Sul.
Aqui pode verificar a comparação entre o percurso feito até ao momento pelo Groupama 3 e o actual detentor do recorde, o catamarã Orange 2 de Bruno Peyron, em 2005. Há quase 500 milhas de diferença entre um e outro à passagem pelo Equador, a favor do primeiro.

Perdas de água na rede pública em Lisboa

Segundo noticia o Expresso online esta tarde, a rede de distribuição de água para consumo humano na área de Lisboa perdeu 19,4 milhões de metros cúbicos em 2007, em 1.463 roturas nos ramais de abastecimento. [...]

Estas perdas de água equivalem, por exemplo, a 3.800 tanques centrais do Oceanário de Lisboa, que tem capacidade de 5.000 metros cúbicos, ou a 19 dias consecutivos de captação, pela torre de bombagem existente na albufeira da Barragem de Castelo do Bode.

Os números, evidentemente, assustam, mas nem são, em termos relativos, dos piores no país. Faro, por exemplo, já chegou a perder cerca de metade da água que circula pelas suas tubagens. O que verdadeiramente choca é o desequilíbrio entre estes desperdícios e as situações de verdadeira carência em certas alturas do ano. Mais ainda, se nos detivermos na ideia que as guerras que vão começando em África muitas vezes têm como motivação o acesso à água por parte dos pastores (nómadas) por contraposição aos agricultores (sedentários). Ou que grande parte dos refugiados deste mundo o são por causa da água, associada a problemas de índole ambiental, seja pela subida das águas nos atóis do Pacífico, seja pela sua absoluta carência motivada por seca ou contaminação dos lençois freáticos.



Parabéns Lego


Um mea culpa: nada disto tem que ver com o ambiente e as pecinhas até são de plástico e perdem-se amiúde, mas a Lego fez 50 anos e nem o Google se esqueceu de assinalar a efeméride. Na minha infância perdi as contas às peças que perdi, às que encontrei, às que me ofereceram, às que não sei como obtive, às que danifiquei, às que inventei, às horas de diversão e entretenimento em que as tardes voavam entre bocados de pão com manteiga e açucar, ou xarope de cenoura nos dias mais frios. Mas a verdade verdadinha é que ainda hoje, por vezes, numa ou noutra montra, o olhar como que se me prende naquelas pecinhas multicolor...

29 de janeiro de 2008

73 minutos em Amsterdão

Nieuw Markt, Amsterdão

A internet está cheia de páginas acerca de Amsterdão e das suas ruas repletas de bicicletas, de artigos, comentários e suspiros acerca do modelo que a Veneza do Norte é ou deveria ser para qualquer cidade que deseje implementar vias cicláveis. Brian é um americano que em 12 de Setembro de 2006 passou acidentalmente por Amsterdão durante um périplo pela Europa. Nesta cidade, Brian sentou-se numa esplanada na praça Nieuw Markt a tomar um café e reparou quão diferentes são as bicicletas e as pessoas que as utilizam. Assim, durante os 73 minutos que demorou a tomar um café, Brian tirou 82 fotografias das distintas "Amsterdam Bicycle Trends" (para manter a expressão original do autor). O resultado é este. O engraçado é que grande parte da essência de Amsterdão está captada na sequência de fotos.